Sunday, May 27, 2007

Manifestações clínicas das doenças hepáticas


As doenças hepáticas podem manifestar-se de formas muito diversas. Os sintomas particularmente importantes incluem a icterícia, a colestase, o aumento de volume do fígado, a hipertensão portal, a ascite, a encefalopatia hepática e a insuficiência hepática. Para diagnosticar uma doença hepática, o médico toma em conta a descrição que o paciente faz dos seus sintomas e realiza uma exploração física.

Insuficiência hepática
A insuficiência hepática define-se como uma grave deterioração da função do fígado.
Aparece como consequência de qualquer tipo de perturbação do fígado, tais como a hepatite viral, a cirrose, assim como as lesões produzidas pelo álcool ou por medicamentos como o paracetamol (acetaminofeno). Para que se apresente uma insuficiência hepática, grande parte do fígado deve estar lesada.
Sintomas e diagnóstico
Uma pessoa com insuficiência hepática costuma apresentar icterícia, tendência para sangrar, ascite, alteração da função cerebral (encefalopatia hepática) e uma saúde precária generalizada. Outros sintomas frequentes são cansaço, fraqueza, náuseas e falta de apetite.
As manifestações clínicas por si mesmas já são muito indicativas da existência de uma insuficiência hepática. As análises de sangue mostram uma grave alteração da função hepática.
Prognóstico e tratamento
O tratamento dependerá das causas e das manifestações clínicas específicas. Geralmente aconselha-se uma dieta rigorosa. O consumo de proteínas é cuidadosamente controlado: o excesso pode causar uma disfunção cerebral; a carência provoca perda de peso. O consumo de sódio deve ser baixo para evitar a acumulação de líquido no abdómen (ascite). O álcool está completamente proibido, já que poderia agravar a lesão do fígado.
Finalmente, a insuficiência hepática é mortal se não for tratada a tempo, ou então se a causa se agravar. Mesmo com o tratamento adequado, pode ser irreversível. Em casos terminais, o paciente pode morrer por causa de uma insuficiência renal (síndroma hepato-renal), que aparece quando o fígado já não funciona. Um transplante de fígado, se for realizado no momento oportuno, pode restabelecer a saúde, mas este procedimento só está indicado numa minoria de pacientes com insuficiência hepática.
Icterícia
A icterícia é uma pigmentação amarelada da pele e do branco dos olhos (esclerótica), produzida por valores anormalmente elevados de pigmentos biliares (bilirrubina) no sangue.
Os glóbulos vermelhos antigos ou com alterações são eliminados da circulação sanguínea, principalmente através do baço. Durante este processo, a hemoglobina (substância contida nos glóbulos vermelhos que transporta o oxigénio) transforma-se em bilirrubina. Esta chega ao fígado e é excretada para o intestino como um componente da bílis.
Se a excreção da bilirrubina encontrar um obstáculo, o excesso desta volta ao sangue provocando icterícia.
As altas concentrações de bilirrubina no sangue podem aparecer quando uma inflamação ou outras irregularidades das células hepáticas impedem a sua excreção para a bílis.
Por outro lado, os canais biliares que se encontram fora do fígado podem ser obstruídos por um cálculo biliar ou por um tumor. Também, embora seja menos frequente, esta alta concentração de bilirrubina no sangue pode ser o resultado da destruição de um grande número de glóbulos vermelhos, como por vezes é o caso dos recém-nascidos com icterícia.
Na síndroma de Gilbert, os valores de bilirrubina aumentam ligeiramente, mas não o suficiente para que provoquem icterícia. Esta doença, por vezes hereditária, costuma ser descoberta casualmente com uma análise de função hepática, mas não é acompanhada de outros sintomas nem causas problemas maiores.
Sintomas
Na icterícia, a pele e os olhos tornam-se amarelados. A urina costuma adquirir um tom escuro, já que a bilirrubina é excretada através dos rins. Podem aparecer outros sintomas, dependendo da causa que provoca a icterícia.
Por exemplo, a inflamação do fígado (hepatite) pode causar falta de apetite, náuseas, vómitos e febre. A obstrução do fluxo da bílis pode produzir os mesmos sintomas que a colestase.
Diagnóstico e tratamento
O médico baseia-se nas análises de laboratório e nos exames morfológicos para determinar a causa da icterícia. Se se tratar de uma doença do próprio fígado, uma hepatite viral, por exemplo, a icterícia irá desaparecendo à medida que o processo se for resolvendo. Se o problema for uma oclusão de um canal biliar, pratica-se, tão depressa quanto possível, uma intervenção cirúrgica ou uma endoscopia (procedimento que utiliza um tubo óptico flexível que permite a utilização de acessórios cirúrgicos), a fim de permeabilizar o canal biliar afectado
.
Aumento de tamanho do fígado
O aumento de volume do fígado (hepatomegalia) é um indicador de doença hepática. Contudo, muita gente que sofre de uma doença hepática tem um fígado de tamanho normal ou mesmo mais pequeno. Um fígado aumentado de volume não produz sintomas, mas se o aumento de volume for excessivo pode causar mal estar abdominal ou uma sensação de saciedade. Se o crescimento se produzir de forma repentina, o fígado dói ao tacto. Durante uma exploração física, o médico costuma determinar o tamanho do fígado palpando-o através da parede abdominal, podendo notar também assim a sua textura.
Em geral, o fígado sente-se mole se aumentou de tamanho por causa de uma hepatite aguda, uma infiltração de gordura, uma congestão de sangue ou uma obstrução dos canais biliares. Em contrapartida, nota-se duro e irregular se a causa for uma cirrose. A detecção ao tacto de um nódulo bem definido pode indicar um cancro.

Ascite
A ascite é a acumulação de líquido na cavidade abdominal.
Tende a aparecer mais em doenças de longa duração (crónicas) que nos processos de curta duração (agudos). Apresenta-se muito frequentemente nos casos de cirrose, especialmente nos causados pelo alcoolismo. A ascite também se pode apresentar em doenças não relacionadas com o fígado tais como o cancro, a insuficiência cardíaca, a insuficiência renal e a tuberculose.
Nos pacientes com doenças hepáticas, o líquido sai da superfície do fígado e do intestino. Uma combinação de factores é responsável pela ascite, incluindo a hipertensão portal, a redução da capacidade dos vasos sanguíneos para reter o líquido, a retenção de líquidos pelos rins e a alteração de várias hormonas e substâncias químicas que regulam os líquidos do organismo.
Sintomas e diagnóstico
Em geral, se a acumulação de líquido no abdómen é escassa, não se produzem sintomas, mas uma grande quantidade, pode provocar distensão abdominal e mal estar, além de dificuldades respiratórias. Quando o médico dá toques ligeiros (percute) no abdómen, produz-se um som surdo. Nos casos de muita acumulação de líquido, o abdómen está tenso e o umbigo fica liso ou mesmo pode ficar saliente. Em alguns pacientes com ascite, os tornozelos incham por causa de um excesso de líquidos (edema).Se a presença ou a causa da ascite não for clara, pode-se fazer uma ecografia. Como alternativa, pode extrair-se uma pequena amostra de líquido introduzindo uma agulha através da parede abdominal, um procedimento chamado paracentese diagnóstica.
A análise de laboratório do líquido contribui para determinar a causa da sua acumulação.
Tratamento
A terapia básica para o tratamento da ascite é o repouso total e uma dieta com pouco sal, geralmente combinada com medicamentos chamados diuréticos, que ajudam os rins a excretar mais líquido pela urina. Se a ascite dificultar a respiração ou a alimentação, o líquido pode ser extraído com uma agulha, um procedimento chamado paracentese terapêutica. O líquido tende a acumular-se de novo no abdómen salvo se a pessoa tomar diuréticos. Muitas vezes, grandes quantidades de albumina (a principal proteína do plasma) perdem-se no líquido abdominal, pelo que esta proteína deve ser administrada por via endovenosa.
Por vezes, mas raramente, desenvolve-se uma infecção no líquido ascítico sem razão aparente, especialmente em pacientes com cirrose alcoólica. Esta infecção chama-se peritonite bacteriana espontânea e é tratada com antibióticos.
Para mais curiosos Doenças hepáticas.

5 comments:

peace_love said...

A minha maior preocupação a nível de fígado é pelo facto de ter tendência para ter o colesterol alto.

cochiuato said...

Obrigado pelo post CI.

Nota mental 247: Tenho que deixar de beber.

Michelle Ximenes said...

sou acadêmica de Enfermagem,sai da aula de Disturbios do trato digestório,sãi atordoada,a professora parecia um carro de corrida na explicação,agora vim me atualizar para a prova,valeu,viu,me orientei no tempo e no espaço,beijos!!!!

Anonymous said...

GOSTEI DO TEXTO MUITO BEM EXPLICADO
SOFRO DE UMA TROMBOSE NA VEIA PORTA E GOSTAVA MUITO DE SABER QUANTO TEMPO DEMORARÁ O TRATAMENTO.
TEM CURA?
MARGARIDA

Ariane Araújo said...

Boa noite! Há alguns ano ocorreu um caso de óbito de uma das mulheres da família. No atestado de óbito consta como causa morte infecção generalizada. Entre o primeiro dia que a moça passou mal e o dia do seu óbito foram cerca de 70 dias.
Ocorreu bem na época de surtos de Dengue tipo 4. Os familiares que moravam perto relatam que não a viram há alguns dias, o que era anormal pois como familiares se viam todos os dias, cerca de 3 vezes ao dia. Os relatos da cunhada que morava perto da casa são de que ela foi à casa reclamando da um mal estar muito grande que a deixou de cama cerca de 3 dias, sendo que tudo começou com um copo de leite que ela ingeriu e depois de alguns minutos sentiu forte dor abdominal quando e foi tão forte que ela se deitou e ficou imóvel o resto do dia.
Depois disso ela passou a vomitar o tempo todo, urinando escuro com fezes bem claras. Suas mãos e pés ficaram bem amarelas e ao ser encaminhada ao médico pelos seus familiares a reposta do médico clinico geral público foi:"Se trata de uma virose, nem vou fazer exame, só vou aplicar glicose e dipirona intravenoso e vou pedir para voltar daqui alguns dias."
Ela foi encaminhada para casa e passou mal do mesmo jeito porém, começou a ser observado um aumento do volume abdominal, indicando acumulo de líquido abdominal.
Ao retornar ao médico no dia seguinte, foi verificado, também clinicamente, que se tratava de algo no fígado, talvez causado pela possível Dengue tipo 4, que era o diagnóstico da "moda", vamos dizer assim.
Ela foi internada, fizeram exames de vários tipos finalmente, depois de a moça sofrer por vários dias. Fizeram até teste para meningite, mas a causa não foi descoberta. Na verdade os exames ficaram muito obscuros para os familiares, eles só sabiam o que o médico falava, não tinham o papel do exame documentado para levar a um segundo especialista por se tratar de um hospital público.

Acredito que ela foi negligenciada.

Era uma mulher magra, não consumia álcool, drogas nem nenhum tipo de substância química, tinha 27 anos de idade e ficou irreconhecível. Seu corpo inteiro ficou edemaciado e sua vontade de viver era inabalável, ela nunca reclamou daquela situação, ficou confiante e implorou para o medico ajudá-la a sair daquela situação, pois as dores eram inacabáveis e ela respirava com impulsos acredito que de dor.
Depois de mais uma semana internada, com a certeza de problema no fígado mas sem diagnóstico de causa, ela precisou ficar sedada para minha minimizar seu sofrimento.
Os familiares muito abalados em vê-la naquela situação desfigurada, conversavam, cuidavam enquanto ela precisava ficar com uma sonda no abdômen para a retirada de grandes quantidades de pus.
O cheiro era insuportável dentro do quarto de hospital e os familiares só aos prantos em ver uma mulher nova com todos esses problemas e com o risco de deixar um filho de 3 anos sem o pai e sem a mãe, já que o pai da criança havia falecido meses depois do nascimento.
Nos últimos dias de vida, ela voltava a consciência em alguns momentos e reclamava muito de gome e sede, já que a alimentação era feita por sondas pois tudo o que ela comia ou bebia ela vomitava, foi uma fase muito difícil para ela.
No dia da morte ela estava completamente irreconhecível, diminuiu a respiração, e faleceu. Ninguém acreditou que alguém com a saúde boa poderia acabar daquele jeito em 70 dias sem saber qual é a causa.
Estou descrevendo aqui pois li seu post e identifiquei muitos dos sintomas dela. Como você tem muita experiência, talvez poderia trazer alguma explicação sobre o caso pois ela já faleceu mas os familiares ficaram inconformados sem saber pelo menos o que aconteceu para ocorrer essa infecção generalizada com ela.
Agradeço desde já pela sua atenção!

Ariane